    Fernando Pessoa




 Cancioneiro

Ciberfil Literatura Digital




                              1
   Verso para Adobe Acrobat Reader por
            Rodolfo S. Cassaca


               Maro de 2002
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                            Cancioneiro:
                                Nota Preliminar
1. Em todo o momento de atividade mental acontece em ns um duplo fenmeno de
   percepo: ao mesmo tempo que tempos conscincia dum estado de alma, temos
   diante de ns, impressionando-nos os sentidos que esto virados para o exterior,
   uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para convenincia de frases,
   tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa
   percepo.
2. Todo o estado de alma  uma passagem. Isto , todo o estado de alma  no s
   representvel por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. H em
   ns um espao interior onde a matria da nossa vida fsica se agita. Assim uma
   tristeza  um lago morto dentro de ns, uma alegria um dia de sol no nosso
   esprito. E -- mesmo que se no queira admitir que todo o estado de alma  uma
   paisagem -- pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode
   representar por uma paisagem. Se eu disser "H sol nos meus pensamentos",
   ningum compreender que os meus pensamentos so tristes.

3. Assim, tendo ns, ao mesmo tempo, conscincia do exterior e do nosso esprito, e
   sendo o nosso esprito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo conscincia de
   duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que
   o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que
   estamos vendo -- num dia de sol uma alma triste no pode estar to triste como
   num dia de chuva -- e, tambm, a paisagem exterior sofre do nosso estado de
   alma --  de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que "na
   ausncia da amada o sol no brilha", e outras coisas assim. De maneira que a
   arte que queira representar bem a realidade ter de a dar atravs duma
   representao simultnea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta
   que ter de tentar dar uma interseco de duas paisagens. Tem de ser duas
   paisagens, mas pode ser -- no se querendo admitir que um estado de alma 
   uma paisagem -- que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma
   (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]




                                                                                      3
                                         NDICE
Abat-Jour............................................................................................. 7
Abdicao............................................................................................ 8
Abismo ................................................................................................ 9
A Grande Esfinge do Egito ............................................................... 10
A minha vida  um barco abandonado.............................................. 11
A morte chega cedo........................................................................... 12
Andei lguas de sombra .................................................................... 13
A alcova............................................................................................. 14
Ao longe, ao luar ............................................................................... 15
Aqui onde se espera .......................................................................... 16
As horas pela alameda....................................................................... 17
As minhas Ansiedades ...................................................................... 18
Assim, sem nada feito e o por fazer .................................................. 19
As tuas mos terminam em segredo.................................................. 20
s vezes entre a tormenta ................................................................. 21
Atravessa esta paisagem o meu sonho .............................................. 22
Autopsicografia ................................................................................. 23
(?) Azul ou verde ou roxo ................................................................. 25
Baladas de uma outra terra................................................................ 27
Bate a luz no cimo............................................................................. 28
Brilha uma Voz na Noute ... .............................................................. 29
Cano............................................................................................... 30
Cansa Sentir Quando se Pensa .......................................................... 31
Cerca de grandes muros quem te sonhas Conselho ......................... 32
Cessa o teu canto!.............................................................................. 33
Chove.  dia de Natal........................................................................ 34
Chove. H silncio, porque a mesma chuva ..................................... 35
Chove ? Nenhuma chuva cai............................................................. 36
Comea a ir ser dia............................................................................ 37
Como a noite  longa! ....................................................................... 38
Como intil taa cheia....................................................................... 39
Como uma voz de fonte que cessasse ............................................... 40
Conta a lenda que dormia.................................................................. 41
Contemplo o lago mudo .................................................................... 42
Contemplo o que no vejo ................................................................ 43
D a surpresa de ser........................................................................... 44
Da minha idia do mundo ................................................................. 45
De onde  quase o horizonte ............................................................. 46
De quem  o olhar ............................................................................. 47
Ditosos a quem acena........................................................................ 48
Dizem que finjo ou minto ................................................................. 49

                                                                                                            4
Dizem? .............................................................................................. 50
Dobre................................................................................................. 51
Dorme enquanto eu velo... ................................................................ 52
Dorme, que a vida  nada! ................................................................ 53
Dorme sobre o meu seio.................................................................... 54
Do vale  montanha........................................................................... 55
Durmo. Se sonho, ao despertar no sei ............................................. 56
 brando o dia, brando o vento ......................................................... 57
Ela canta, pobre ceifeira.................................................................... 58
Ela ia, tranqila pastorinha................................................................ 59
Elas so vaporosas............................................................................. 60
Em Busca da Beleza.......................................................................... 61
Em horas inda louras, lindas ............................................................. 62
Emissrio de um rei desconhecido.................................................... 63
Em plena vida e violncia ................................................................. 64
Alm-Deus ........................................................................................ 65
Entre o bater rasgado dos pendes.................................................... 68
Entre o luar e a folhagem .................................................................. 69
Entre o sono e sonho, ........................................................................ 70
Eros e Psique ..................................................................................... 71
Esqueo-me das horas transviadas.................................................... 73
Esta espcie de loucura ..................................................................... 74
Feliz dia para quem  ........................................................................ 76
Flor que no dura .............................................................................. 77
Foi um momento ............................................................................... 78
Fosse eu apenas, no sei onde ou como ............................................ 80
Fresta ................................................................................................. 81
Fria nas trevas o vento..................................................................... 82
Glosa.................................................................................................. 83
Gomes Leal ....................................................................................... 84
Grandes mistrios habitam................................................................ 85
Guia-me a s a razo ......................................................................... 86
Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva.......................................... 87
Intervalo ............................................................................................ 88
Isto..................................................................................................... 89
Liberdade........................................................................................... 90
No digas nada!................................................................................. 91
No: no digas nada!......................................................................... 92
O Andaime ........................................................................................ 93
O Maestro Sacode a Batuta ............................................................... 95
O que me di no ............................................................................ 97
Pobre velha msica! .......................................................................... 98
Pe-me as mos nos ombros... .......................................................... 99

                                                                                                               5
Sonho. No sei quem sou. ............................................................... 100
Sorriso audvel das folhas ............................................................... 101
Tenho Tanto Sentimento ................................................................. 102
Teus olhos entristecem. ................................................................... 103
Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento.............. 104
Vaga, no azul amplo solta ............................................................... 105




                                                                                                  6
Abat-Jour
A lmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o cho que  meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no cho incerto
Um crculo a ondear.
E entre a sombra e a luz
Que oscila no cho
Meu sonho conduz
Minha inateno.
Bem sei... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
At de sonhar...




                           7
Abdicao
Toma-me,  noite eterna, nos teus braos
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaos.
Minha espada, pesada a braos lassos,
Em mos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa -- eu os deixei
Na antecmara, feitos em pedaos
Minha cota de malha, to intil,
Minhas esporas de um tinir to ftil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei  noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.




                                           8
Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E sbito isto me bate
De encontro ao devaneando --
O que  srio, e correr?
O que  est-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vcuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente  oco --
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo -- eu e o mundo em redor --
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idia, alma de nome
A mim,  terra e aos cus...
E sbito encontro Deus.




                                   9
A Grande Esfinge do Egito

A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...
Escrevo -- e ela aparece-me atravs da minha mo transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirmides...
Escrevo -- perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quops ...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirmides a escrever versos  luz clara deste
candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto atravs dos traos que fao com a
pena...
Ouo a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu no poder v-la uma mo enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrs de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadver do rei Quops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Quops em ouro velho e Mim! ...




                                                                       10
A minha vida  um barco abandonado
A minha vida  um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que no ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado ?
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manh, puro e salgado.
Morto corpo da ao sem vontade
Que o viva, vulto estril de viver,
Boiando  tona intil da saudade.
Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E  para alm do mar a ansiada Ilha.




                                          11
A morte chega cedo
A morte chega cedo,
Pois breve  toda vida
O instante  o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi comeado,
O ideal no acabou,
E quem tenha alcanado
No sabe o que alcanou.
E tudo isto a morte
Risca por no estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.




                            12
Andei lguas de sombra
Andei lguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu s avessas
Meu cio com sem-nexo,
E apagaram-se as lmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
No pela minha vista.
H um osis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por no-h-frinchas,
Passa uma caravana.
Esquece-me de sbito
Como  o espao, e o tempo
Em vez de horizontal
 vertical.




                              13
A alcova
Desce no se por onde
At no me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensaes.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. No h
C-dentro nem l-fora.
E o deserto est agora
Virado para baixo.
A noo de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz algum morto.
Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.




                             14
Ao longe, ao luar
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que  que me revela ?
No sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angstia me enlaa ?
Que amor no se explica ?
 a vela que passa
Na noite que fica.




                            15
Aqui onde se espera
Aqui onde se espera
-- Sossego, s sossego --
Isso que outrora era,
Aqui onde, dormindo,
-- Sossego, s sossego --
Se sente a noite vindo,
E nada importaria
-- Sossego, s sossego --
Que fosse antes o dia,
Aqui, aqui estarei
-- Sossego, s sossego --
Como no exlio um rei,
Gozando da ventura
-- Sossego, s sossego --
De no ter a amargura
De reinar, mas guardando
-- Sossego, s sossego --
O nome venerando...
Que mais quer quem descansa
-- Sossego, s sossego --
Da dor e da esperana,
Que ter a negao
-- Sossego, s sossego --
De todo o corao ?




                              16
As horas pela alameda
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar --
A expirar mas nunca expira --
Uma flauta que delira,
Que  mais a idia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silncio a tremeluzir...




                                17
As minhas Ansiedades
As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo.
Os meus desejos balouam-se
Em meio de um jardim vertical.
Na Mmia a posio  absolutamente exata.
Msica longnqua,
Msica excessivamente longnqua,
Para que a Vida passe
E colher esquea aos gestos.




                                            18
Assim, sem nada feito e o por fazer
Assim, sem nada feito e o por fazer
Mal pensado, ou sonhado sem pensar,
Vejo os meus dias nulos decorrer,
E o cansao de nada me aumentar.
Perdura, sim, como uma mocidade
Que a si mesma se sobrevive, a esperana,
Mas a mesma esperana o tdio invade,
E a mesma falsa mocidade cansa.
Tnue passar das horas sem proveito,
Leve correr dos dias sem ao,
Como a quem com sade jaz no leito
Ou quem sempre se atrasa sem razo.
Vadio sem andar, meu ser inerte
Contempla-me, que esqueo de querer,
E a tarde exterior seu tdio verte
Sobre quem nada fez e nada quere.
Intil vida, posta a um canto e ida
Sem que algum nela fosse, nau sem mar,
Obra solentemente por ser lida,
Ah, deixem-se sonhar sem esperar!




                                            19
As tuas mos terminam em segredo
As tuas mos terminam em segredo.
Os teus olhos so negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...
Entre buxos e ao p de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo pe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.
Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianas deixaram, meu amor,
Ser o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo  rosa do Levante!




                                           20
s vezes entre a tormenta
s vezes entre a tormenta,
quando j umedeceu,
raia uma nesga no cu,
com que a alma se alimenta.
E s vezes entre o torpor
que no  tormenta da alma,
raia uma espcie de calma
que no conhece o langor.
E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito est feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.
Porque verdadeiramente
sentir  to complicado
que s andando enganado
 que se cr que se sente.
Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo  chuvas que orvalham
folhas cadas que secam.




                                21
Atravessa esta paisagem o meu sonho
Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores  transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas guas por sombra
Os vultos ao sol daquelas rvores antigas...
O porto que sonho  sombrio e plido
E esta paisagem  cheia de sol deste lado...
Mas no meu esprito o sol deste dia  porto sombrio
E os navios que saem do porto so estas rvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais  a estrada ntida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das rvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na gua pelas folhas uma a uma dentro...
No sei quem me sonho...
Sbito toda a gua do mar do porto  transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que l estivesse
desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de rvore, estrada a arder em aquele
porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao p de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...




                                                                  22
Autopsicografia
O poeta  um fingidor.
Finge to completamente
Que chega a fingir que  dor
A dor que deveras sente.
E os que lem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
No as duas que ele teve,
Mas s a que eles no tm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razo,
Esse comboio de corda
Que se chama corao.




                               23
24
(?) Azul ou verde ou roxo
Azul, ou verde, ou roxo quando o sol
O doura falsamente de vermelho,
O mar  spero (?), casual (?) ou mol(e),
 uma vez abismo e outra espelho.
Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
J que nada ali h por desvendar.
Os grandes capites e os marinheiros
Com que fizeram a navegao,
Jazem longnquos, lgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratido.
S o mar s vezes, quando so
Grandes as ondas e  deveras mar
Parece incertamente recordar.
Mas sonho... O mar  gua,  gua nua,
Serva do obscuro mpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.
Mas, por mais que descante
Sobre a ignorncia natural do mar,
Pressinto-o, vasante, a murmurar.
Quem sabe o que  a alma ? Quem conhece
Que alma h nas coisas que parecem mortas.
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.
Quem sabe se no espao vcuo h portas?
O sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.
Capites, contramestres -- todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia
Acaso vos chamou de ignotas flautas
A vaga e impossvel melodia.
Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias s de ouvir e no de achar?



                                             25
Quem atrs de intrminos oceanos
Vos chamou  distncia ou quem
Sabe que h nos coraes humanos
No s uma nsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais sutil tambm
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e no parar.
Se assim  e se vs e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vs por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
H mais alma que a que pode vir
 tona v de ns, como  do mar
Fazei-me livre, enfim , de o ignorar.
Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capito
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso corao,
Fazei-me ouvir , como a um perdo,
Numa reminiscncia de ensinar,
O antigo portugus que fala o mar!




                                           26
Baladas de uma outra terra
Baladas de uma outra terra, aliadas
s saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lvidas ainda aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...
Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...
E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas so belas e as estrelas
So delas... Ei-las alheadas...
E so fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...
Toadas afastadas, irreais, de baladas...
Ais...




                                                   27
Bate a luz no cimo...
Bate a luz no cimo
Da montanha, v...
Sem querer eu cismo
Mas no sei em qu....
No sei que perdi
Ou que no achei...
Vida que vivi,
Que mal eu a amei!...
Hoje quero tanto
Que o no posso ter,
De manh h o pranto
E ao anoitecer...
Tomara eu ter jeito
Para ser feliz...
Como o mundo  estreito,
E o pouco que eu quis!
Vai morrendo a luz
No alto da montanha...
Como um rio a flux
A minha alma banha,
Mas no me acarinha,
No me acalma nada...
Pobre criancinha
Perdida na estrada!...




                           28
Brilha uma Voz na Noute ...
Brilha uma voz na noute
De dentro de Fora ouvi-a...
 Universo, eu sou-te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de idia e de nome
Em mim, e a voz:  mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.




                              29
Cano
Silfos ou gnomos tocam?...
Roam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.
Ondulam como em voltas
De estradas no sei onde
Ou como algum que entre rvores
Ora se mostra ou esconde.
Forma longnqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal oio e quase choro.
Por que choro no sei.
To tnue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se  s o crepsculo,
Os pinhais e eu estar triste.
Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora no h mais msica
Do que a dos pinheirais.




                                   30
Cansa Sentir Quando se Pensa
Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
H uma solido imensa
Que tem por corpo o frio do ar.
Neste momento insone e triste
Em que no sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.
Tudo isto me parece tudo.
E  uma noite a ter um fim
Um negro astral silncio surdo
E no poder viver assim.
(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silncio mudo --
Ah, nada  isto, nada  assim!)




                                    31
Cerca de grandes muros quem te sonhas
Conselho
Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde  visvel o jardim
Atravs do porto de grade dada,
Pe quantas flores so as mais risonhas,
Para que te conheam s assim.
Onde ningum o vir no ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros tm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde s teu, e nunca o v ningum,
Deixa as flores que vm do cho crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ningum, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu s --
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trs do qual a flor nativa roa
A erva to pobre que nem tu a vs...




                                            32
Cessa o teu canto!
Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Com que vindo
Nos interstcios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha at ns.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas cantar.
E a melodia
Que no havia.
Se agora a lembro,
Faz-me chorar.




                       33
Chove.  dia de Natal
Chove.  dia de Natal.
L para o Norte  melhor:
H a neve que faz mal,
E o frio que ainda  pior.
E toda a gente  contente
Porque  dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da conveno,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal no.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos ps.




                                     34
Chove. H silncio, porque a mesma chuva
Chove. H silncio, porque a mesma chuva
No faz rudo seno com sossego.
Chove. O cu dorme. Quando a alma  viva
Do que no sabe, o sentimento  cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
To calma  a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que no  chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
No paira vento, no h cu que eu sinta.
Chove longnqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...




                                             35
Chove ? Nenhuma chuva cai...
Chove? Nenhuma chuva cai...
Ento onde  que eu sinto um dia
Em que rudo da chuva atrai
A minha intil agonia ?
Onde  que chove, que eu o ouo ?
Onde  que  triste,  claro cu ?
Eu quero sorrir-te, e no posso,
 cu azul, chamar-te meu...
E o escuro rudo da chuva
 constante em meu pensamento.
Meu ser  a invisvel curva
Traada pelo som do vento...
E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus ps como um disfarce.
Ah, na minha alma sempre chove.
H sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, algum dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...
Os cus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro seqestrando a lucidez
Um espasmo apagado em dio  nsia
Pe dias de ilhas vistas do convs
No meu cansao perdido entre os gelos,
E a cor do outono  um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonncia...




                                           36
Comea a ir ser dia
Comea a ir ser dia,
O cu negro comea,
Numa menor negrura
Da sua noite escura,
A Ter uma cor fria
Onde a negrura cessa.
Um negro azul-cinzento
Emerge vagamente
De onde o oriente dorme
Seu tardo sono informe,
E h um frio sem vento
Que se ouve e mal se sente.
Mas eu, o mal-dormido,
No sinto noite ou frio,
Nem sinto vir o dia
Da solido vazia.
S sinto o indefinido
Do corao vazio.
Em vo o dia chega
Quem no dorme, a quem
No tem que ter razo
Dentro do corao,
Que quando vive nega
E quando ama no tem.
Em vo, em vo, e o cu
Azula-se de verde
Acinzentadamente.
Que  isto que a minha alma sente ?
Nem isto, no, nem eu,
Na noite que se perde.




                                      37
Como a noite  longa!
Como a noite  longa!
Toda a noite  assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p'r'ao p de mim...
Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao p da cama
Canta-me, minha ama,
Uma cano triste.
Era uma princesa
Que amou... J no sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...
Que  feito de tudo ?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.




                            38
Como intil taa cheia
Como intil taa cheia
Que ningum ergue da mesa,
Transborda de dor alheia
Meu corao sem tristeza.
Sonhos de mgoa figura
S para Ter que sentir
E assim no tem a amargura
Que se temeu a fingir.
Fico num palco sem tbuas
Vestida de papel seda
Mima uma dana de mgoas
Para que nada suceda.




                              39
Como uma voz de fonte que cessasse
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vos olhares
Se admiraram), p'ra alm dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tdio nasce
Parou... Apareceu j sem disfarce
De msica longnqua, asas nos ares,
O mistrio silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longnqua s existe
Para haver nela um silncio em descida
P'ra o mistrio, silncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde h a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...




                                                    40
Conta a lenda que dormia
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem s despertaria
Um Infante, que viria
De alm do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, j libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que  Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela  ignorado.
Ela para ele  ningum.
Mas cada um cumpre o Destino --
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
 cabea, em maresia,
Ergue a mo, e encontra hera,
E v que ele mesmo era
A Princesa que dormia.



                                  41
Contemplo o lago mudo
Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
No sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
No sinto a brisa mex-lo
No sei se sou feliz
Nem se desejo s-lo.
Trmulos vincos risonhos
Na gua adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha nica vida?




                            42
Contemplo o que no vejo
Contemplo o que no vejo.
 tarde,  quase escuro.
E quanto em mim desejo
Est parado ante o muro.

Por cima o cu  grande;
Sinto rvores alm;
Embora o vento abrande,
H folhas em vaivm.
Tudo  do outro lado,
No que h e no que penso.
Nem h ramo agitado
Que o cu no seja imenso.
Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
No sinto, no sou triste.
Mas triste  o que estou.




                             43
D a surpresa de ser
D a surpresa de ser.
 alta, de um louro escuro.
Faz bem s pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem Ter que haver madrugada.
E a mo do seu brao branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a salincia do flanco
Do seu relevo tapado.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando  que eu embarco?
 fome, quando  que eu como ?




                                     44
Da minha idia do mundo
Da minha idia do mundo
        Ca...
Vcuo alm do profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vcuo sem si-prprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Viso que se no pode ver...
Alm-Deus! Alm-Deus! Negra calma...
Claro do Desconhecido...
Tudo tem outro sentido,  alma,
Mesmo o ter-um-sentido...




                                       45
De onde  quase o horizonte
De onde  quase o horizonte
Sobe uma nvoa ligeira
E afaga o pequeno monte
Que pra na dianteira.
E com braos de farrapo
Quase invisveis e frios,
Faz cair seu ser de trapo
Sobre os contornos macios.
Um pouco de alto medito
A nvoa s com a ver.
A vida? No acredito.
A crena? No sei viver.




                              46
De quem  o olhar
De quem  o olhar
Que espreita por meus olhos ?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando ?
Por que caminhos seguem,
No os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
s vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim prprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo --
 uma ndoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idia das coisas.
Se acenderem as velas
E no houver apenas
A vaga luz de fora --
No sei que candeeiro
Aceso onde na rua --
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que  minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espao misterioso
Entre espaos desertos
Cujo sentido  nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.


                                47
Ditosos a quem acena

MARINHA
Ditosos a quem acena
Um leno de despedida!
So felizes : tm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Do-me at onde penso,
E a dor  j de pensar,
rfo de um sonho suspenso
Pela mar a vazar...
E sobe at mim, j farto
De improfcuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.




                               48
Dizem que finjo ou minto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. No.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginao.
No uso o corao.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
 como que um terrao
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa  que  linda.
Por isso escrevo em meio
Do que no est ao p,
Livre do meu enleio,
Srio do que no ,
Sentir, sinta quem l!




                             49
Dizem?
Dizem?
Esquecem.
No dizem ?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
No fazem?
Igual.
Por qu
Esperar ?
Tudo 
Sonhar.




              50
Dobre
Peguei no meu corao
E pu-lo na minha mo
Olhei-o como quem olha
Gros de areia ou uma folha.
Olhei-o pvido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma s comovida
Do sonho e pouco da vida.




                               51
Dorme enquanto eu velo...
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim  risonho.
Quero-te para sonho,
No para te amar.
A tua carne calma
 fria em meu querer.
Os meus desejos so cansaos.
Nem quero ter nos braos
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te to atento
Que o sonho  encantamento
E eu sonho sem sentir.




                                52
Dorme, que a vida  nada!
Dorme, que a vida  nada!
Dorme, que tudo  vo!
Se algum achou a estrada,
Achou-a em confuso,
Com a alma enganada.
No h lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.
Melhor entre onde os ramos
Tecem docis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.




                             53
Dorme sobre o meu seio
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na iluso de amar.
Tudo  nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O `spao negro  mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do corao sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mgoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O ntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.




                             54
Do vale  montanha
Do vale  montanha,
Da montanha ao monte, cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Pr casas, por prados,
Por Quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale  montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrs e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale  montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto  sem fim,
Sem ningum que o conte,
Caminhais em mim.




                                          55
Durmo. Se sonho, ao despertar no sei
Durmo. Se sonho, ao despertar no sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espao aberto
Que no conheo, pois que despertei
Para o que inda no sei.
Melhor  nem sonhar nem no sonhar
E nunca despertar.




                                        56
 brando o dia, brando o vento
 brando o dia, brando o vento
 brando o sol e brando o cu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!
Mas entre mim e as brandas glrias
Deste cu limpo e este ar sem mim
Intervm sonhos e memrias...
Ser eu assim ser eu assim!
Ah, o mundo  quanto ns trazemos.
Existe tudo porque existo.
H porque vemos.
E tudo  isto, tudo  isto!




                                     57
Ela canta, pobre ceifeira
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e annima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E h curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz h o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razes pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razo!
O que em mim sente `st pensando.
Derrama no meu corao a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconscincia,
E a conscincia disso!  cu!
 campo!  cano! A cincia
Pesa tanto e a vida  to breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!




                                                     58
Ela ia, tranqila pastorinha
Ela ia, tranqila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeio.
Segui-a, como um gesto de perdo,
O seu rebanho, a saudade minha...
"Em longes terras hs de ser rainha
Um dia lhe disseram, mas em vo...
Seu vulto perde-se na escurido...
S sua sombra ante meus ps caminha...
Deus te d lrios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Sers, rainha no, mas s pastora _
S sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...




                                             59
Elas so vaporosas
MINUETE INVISVEL
Elas so vaporosas,
Plidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...
Vm, areas, danar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que h nos seus vultos...
Passam e agitam a brisa...
Plida, a pompa indecisa
Da sua flbil demora
Paira em aurola  hora...
Passam nos ritmos da sombra...
Ora  uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...

E assim vo indo, delindo
Seu perfil nico e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lvido e frio...
Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longnquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Plido plio lunar ...




                                    60
Em Busca da Beleza
Soam vos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
J tive a alma sem descrena presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.
Da Perfeio segui em v conquista,
Mas vi depressa, j sem a alma acesa,
Que a prpria idia em ns dessa beleza
Um infinito de ns mesmos dista.
Nem  nossa alma definir podemos
A Perfeio em cuja estrada a vida,
Achando-a intrmina, a chorar perdemos.
O mar tem fim, o cu talvez o tenha,
Mas no a nsia da Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.




                                            61
Em horas inda louras, lindas
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno  tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde j no torna!
E o tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E h nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos....
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.




                                      62
Emissrio de um rei desconhecido
Emissrio de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instrues de alm,
E as bruscas frases que aos meus lbios vm
Soam-me a um outro e anmalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a misso que o meu ser tem,
E a glria do meu Rei d-me desdm
Por este humano povo entre quem lido...
No sei se existe o Rei que me mandou.
Minha misso ser eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas h! Eu sinto-me altas tradies
De antes de tempo e espao e vida e ser...
J viram Deus as minhas sensaes...




                                               63
Em plena vida e violncia
Em plena vida e violncia
De desejo e ambio,
De repente uma sonolncia
Cai sobre a minha ausncia.
Desce ao meu prprio corao.
Ser que a mente, j desperta
Da noo falsa de viver,
V que, pela janela aberta,
H uma paisagem toda incerta
E um sonho todo a apetecer ?




                                64
Alm-Deus
Abismo
Passou
A Voz de Deus
A Queda
Brao sem Corpo Brandindo um Gldio


I/ ABISMO
OLHO O TEJO, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E sbito isto me bate
De encontro ao devaneando --
O que  ser-rio, e correr?
O que  est-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vcuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente  oco --
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo -- eu e o mundo em redor --
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idia, alma de nome
A mim,  terra e aos cus...
E sbito encontro Deus.
II/ PASSOU
Passou, fora de Quando,
De Porqu, e de Passando...,
Turbilho de Ignorado,
Sem ter turbilhonado...,
Vasto por fora do Vasto
Sem ser, que a si se assombra...
O Universo  o seu rasto...
Deus  a sua sombra...


                                      65
III/ A VOZ DE DEUS
Brilha uma voz na noute...
De dentro de Fora ouvi-a...
 Universo, eu sou-te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de idia e de nome
Em mim, e a voz:  mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que para Deus me afundo.

IV/ A QUEDA
Da minha idia do mundo
Ca...
Vcuo alm de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vcuo sem si-prprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Viso que se no pode ver...
Alm-Deus! Alm-Deus! Negra calma...
Claro de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido,  alma,
Mesmo o ter-um-sentido...

V/ BRAO SEM CORPO BRANDINDO UM GLDIO
(Entre a rvore e o v-la)
Entre a rvore e o v-la
Onde est o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por no saber se a curva da ponte
 a curva do horizonte...


                                         66
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
rvore de folhas vestida --
Entre isso e rvore h fio?
Pombas voando -- o pombal
Est-lhes sempre  direita, ou  real?
Deus  um grande Intervalo,
Mas entre qu e qu?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem  que me v?
Erro-me... E o pombal elevado
Est em torno na pomba, ou de lado?

                          [1913?]




                                         67
Entre o bater rasgado dos pendes
Entre o bater rasgado dos pendes
E o cessar dos clarins na tarde alheia,
A derrota ficou : como uma cheia
Do mal cobriu os vagos batalhes.
Foi em vo que o Rei louco os seus vares
Trouxe ao prolixo prlio, sem idia.
gua que mo infiel verteu na areia --
Tudo morreu, sem rastro e sem razes.
A noite cobre o campo, que o Destino
Com a morte tornou abandonado.
Cessou, com cessar tudo, o desatino.
S no luar que nasce os pendes rotos
'Strelam no absurdo campo desolado
Uma derrota herldica de ignotos.




                                            68
Entre o luar e a folhagem
Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tnue lembrana ou saudade,
Princpio ou fim do que no foi,
No tem lugar, no tem verdade.
Atrai e di.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto brio de si,
Tristeza ou alegria o traz ?
O que sou dele a quem sorri ?
Nada  nem faz.
S de segui-lo me perdi.




                                   69
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
 o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais alm,
Naquelas vrias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre --
Esse rio sem fim.




                             70
Eros e Psique

      ...E assim vdes, meu Irmo, que as verdades
      que vos foram dadas no Grau de Nefito, e
      aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
      Menor, so, ainda que opostas, a mesma verdade.
          (Do Ritual Do Grau De Mestre Do
                                     trio
          Na Ordem Templria De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem s despertaria
Um Infante, que viria
De alm do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, j libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que  Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela  ignorado,
Ela para ele  ningum.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
                                                        71
E, inda tonto do que houvera,
 cabea, em maresia,
Ergue a mo, e encontra hera,
E v que ele mesmo era
A Princesa que dormia.




Publicado pela primeira vez in Presena, n.os 41-42, Coimbra, maio
de 1934. Acerca da epgrafe que encabea este poema diz o prprio
autor a uma interrogao levantada pelo crtico A. Casais Monteiro,
em carta a este ltimo:
A citao, epgrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho
(traduzido, pois o Ritual  em latim) do Ritual do Terceiro Grau da
Ordem Templria de Portugal, indica simplesmente -- o que  fato
-- que me foi permitido folhear os Rituais dos trs primeiros graus
dessa Ordem, extinta, ou em dormncia desde cerca de 1888. Se no
estivesse em dormncia, eu no citaria o trecho do Ritual, pois se
no devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que esto
em trabalho [In VO/II.]




                                                                      72
Esqueo-me das horas transviadas

PASSOS DA CRUZ
Esqueo-me das horas transviadas
o Outono mora mgoas nos outeiros
E pe um roxo vago nos ribeiros...
Hstia de assombro a alma, e toda estradas...
Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgaco... Trigueiros
Os cus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro seqestrando a lucidez
Um espasmo apagado em dio  nsia
Pe dias de ilhas vistas do convs
No meu cansao perdido entre os gelos
E a cor do outono  um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonncia...




                                                73
Esta espcie de loucura
Esta espcie de loucura
Que  pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confuso do pensamento,
No me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haver
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim no sei o que h




                                 74
75
Feliz dia para quem 
Feliz dia para quem 
O igual do dia,
E no exterior azul que v
Simples confia!
Azul do cu faz pena a quem
No pode ser
Na alma um azul do cu tambm
Com que viver
Ah, e se o verde com que esto
Os montes quedos
Pudesse haver no corao
E em seus segredos!
Mas vejo quem devia estar
Igual do dia
Insciente e sem querer passar.
Ah, a ironia
De s sentir a terra e o cu
To belo ser
Quem de si sente que perdeu
A alma p'ra os ter!




                                 76
Flor que no dura
Flor que no dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.
No te perdi
No que sou eu,
S nunca mais,  flor, te vi
Onde no sou seno a terra e o cu.




                                      77
Foi um momento
Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu brao,
Num movimento
Mais de cansao
Que pensamento,
A tua mo
E a retiraste.
Senti ou no ?
No sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memria
Fixa e corprea
Onde pousaste
A mo que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas to de leve!...
Tudo isto  nada,
Mas numa estrada
Como  a vida
H muita coisa
Incompreendida...
Sei eu se quando
A tua mo
Senti pousando
`Sobre o meu brao,
E um pouco, um pouco,
No corao,
No houve um ritmo
Novo no espao ?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistrio,
Sbito e etreo,


                        78
Que nem soubesses
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.




                    79
Fosse eu apenas, no sei onde ou como
Fosse eu apenas, no sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo....
Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de no pertencer
Meu intuito glorola com Ter
A rvore do meu uso o nico pomo...
Fosse eu uma metfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,
Mas doente, e , num crepsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na ltima tarde de um imprio em chamas...




                                             80
Fresta
Em meus momentos escuros
Em que em mim no h ningum,
E tudo  nvoas e muros
Quanto a vida d ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longnquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheo,
E, ainda que seja iluso
O exterior em que me esqueo,
Nada mais quero nem peo.
Entrego-lhe o corao.




                                     81
Fria nas trevas o vento
Fria nas trevas o vento
Num grande som de alongar,
No h no meu pensamento
Seno no poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.

Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.




                                82
Glosa
Quem me roubou a minha dor antiga,
E s a vida me deixou por dor ?
Quem, entre o incndio da alma em que o ser periga,
Me deixou s no fogo e no torpor ?
Quem fez a fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor ?
Ningum ou o Fado, e a fantasia siga
A seu infiel e irreal sabor...
Quem me disps para o que no pudesse ?
Quem me fadou para o que no conheo
Na teia do real que ningum tece ?
Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu s a vida em que me esqueo,
"Onde a minha saudade a cor se trava ?"




                                                      83
Gomes Leal
Sangra, sinistro, a alguns o astro bao.
Seus trs anis irreversveis so
A desgraa, a tristeza, a solido.
Oito luas fatais fitam no espao.
Este, poeta, Apolo em seu regao
A Saturno entregou. A plmbea mo
Lhe ergueu ao alto o aflito corao.
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inteis oito luas da loucura
Quando a cintura trplice denota
Solido e desgraa e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestgios de maligna formosura :
 a lua alm de Deus, lgida e ignota.




                                           84
Grandes mistrios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pssaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.
So aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as h.
Hesito se sondo e cismo,
E  minha alma  cataclismo
O limiar onde est.
Ento desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar  medonho
E todo passo  uma cruz.




                                85
Guia-me a s a razo
Guia-me a s a razo.
No me deram mais guia.
Alumia-me em vo ?
S ela me alumia.
Tivesse quem criou
O mundo desejado
Que eu fosse outro que sou,
Ter-me-ia outro criado.
Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
Cego, fora eu bendito ?
Como olhar, a razo
Deus me deu, para ver
Para alm da viso --
Olhar de conhecer.
Se ver  enganar-me,
Pensar um descaminho,
No sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.




                               86
Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende  mais chuva a bater na vidraa...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela  o templo estar aceso,
E as vidraas da igreja vistas de fora so o som da chuva ouvido por
dentro ...
O esplendor do altar-mor  o eu no poder quase ver os montes
Atravs da chuva que  ouro to solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraa
E sente-se chiar a gua no fato de haver coro...
A missa  um automvel que passa
Atravs dos fiis que se ajoelham em hoje ser um dia triste ...
Sbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o rudo da chuva absorve tudo
At s se ouvir a voz do padre gua perder-se ao longe
Com o som de rodas de automvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa ...




                                                                       87
Intervalo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas tm escutado --
Aquele amor cheio de crena e medo
Que  verdadeiro s se  segredado?...
Quem te disse to cedo?
No fui eu, que te no ousei diz-lo.
No foi um outro, porque no sabia.
Mas quem roou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria algum, seria?
Ou foi s que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi s qualquer cime meu de ti
Que o sups dito, porque o no direi,
Que o sups feito, porque o s fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que no passa do meu pensamento
Que anseia e que no sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca --
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.




                                             88
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. No.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginao.
No uso o corao.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
 como que um terrao
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa  que  linda.
Por isso escrevo em meio
Do que no est ao p,
Livre do meu enleio,
Srio do que no .
Sentir? Sinta quem l!




                             89
Liberdade
Ai que prazer
No cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E no fazer!
Ler  maada,
Estudar  nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edio original.
E a brisa, essa,
De to naturalmente matinal,
Como o tempo no tem pressa...
Livros so papis pintados com tinta.
Estudar  uma coisa em que est indistinta
A distino entre nada e coisa nenhuma.
Quanto  melhor, quanto h bruma,
Esperar por D.Sebastio,
Quer venha ou no!
Grande  a poesia, a bondade e as danas...
Mas o melhor do mundo so as crianas,
Flores, msica, o luar, e o sol, que peca
S quando, em vez de criar, seca.
Mais que isto
 Jesus Cristo,
Que no sabia nada de finanas
Nem consta que tivesse biblioteca...




                                              90
No digas nada!
No digas nada!
Nem mesmo a verdade
H tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender --
Tudo metade
De sentir e de ver...
No digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanh
Em outra paisagem
Digas que foi v
Toda essa viagem
At onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
No digas nada.




                                      91
No: no digas nada!
No: no digas nada!
Supor o que dir
A tua boca velada
 ouvi-lo j
 ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que s no vem  flor
Das frases e dos dias.
s melhor do que tu.
No digas nada: s!
Graa do corpo nu
Que invisvel se v.




                          92
O Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi s a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui  beira do rio
Sossego sem ter razo.
Este seu correr vazio
Figura, annimo e frio,
A vida vivida em vo.
A `sp'rana que pouco alcana!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criana
Sobre mais que minha `s'prana,
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, to leves
Que no sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam -- verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que no tinha.
Sou mais velho do que sou.
A iluso, que me mantinha,
S no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das guas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranas sonolentas
De esperanas nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava j perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.



                                  93
Som morto das guas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva no s lembranas --
Mortas, porque ho de morrer.
Sou j o morto futuro.
S um sonho me liga a mim --
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser -- muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que no serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.




                                94
O Maestro Sacode a Batuta
O maestro sacode a batuta,
A lnguida e triste a msica rompe ...
Lembra-me a minha infncia, aquele dia
Em que eu brincava ao p dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum co verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...
Prossegue a msica, e eis na minha infncia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um co verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro  o meu quintal, a minha infncia
Est em todos os lugares e a bola vem a tocar msica,
Uma msica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de co verde tornando-se jockey amarelo...
(To rpida gira a bola entre mim e os msicos...)
Atiro-a de encontra  minha infncia e ela
Atravessa o teatro todo que est aos meus ps
A brincar com um jockey amarelo. e um co verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a msica atira com bolas
 minha infncia... E o muro do quintal  feito de gestos
De batuta e rotaes confusas de ces verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...
Todo o teatro  um muro branco de msica
Por onde um co verde corre atrs de minha saudade
Da minha infncia, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde h rvores e entre os ramos ao p da copa
Com orquestras a tocar msica,
Para onde h filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memrias da minha infncia...
E a msica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se
preto,

                                                                   95
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabea,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...




                                                               96
O que me di no 
O que me di no 
O que h no corao
Mas essas coisas lindas
Que nunca existiro...
So as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
So como se a tristeza
Fosse rvore e, uma a uma,
Cassem suas folhas
Entre o vestgio e a bruma.
            (Fernando Pessoa, 5-9-1933)




                                          97
Pobre velha msica!
Pobre velha msica!
No sei por que agrado,
Enche-se de lgrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te,
No sei se te ouvi
Nessa minha infncia
Que me lembra em ti.
Com que nsia to raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? No sei:
Fui-o outrora agora.




                           98
Pe-me as mos nos ombros...
Pe-me as mos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida  escombros,
A minha alma insonte.
Eu no sei por qu,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que v,
E v tudo estranho.
Pe a tua mo
Sobre o meu cabelo...
Tudo  iluso.
Sonhar  sab-lo.




                               99
Sonho. No sei quem sou.
Sonho. No sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
   Minha alma no tem alma.
Se existo  um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que no sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
    No tenho ser nem lei.
Lapso da conscincia entre iluses,
Fantasmas me limitam e me contm.
Dorme insciente de alheios coraes,
    Corao de ningum.




                                            100
Sorriso audvel das folhas
Sorriso audvel das folhas
No s mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro  que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de no olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo  vento e disfarar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde no olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se no conversou
Isto acaba ou comeou?




                                101
Tenho Tanto Sentimento
Tenho tanto sentimento
Que  freqente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheo, ao medir-me,
Que tudo isso  pensamento,
Que no senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que  vivida
E outra vida que  pensada,
E a nica vida que temos
 essa que  dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porm  a verdadeira
E qual errada, ningum
Nos saber explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
 a que tem que pensar.




                                 102
Teus olhos entristecem.
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
No me ouves, e prossigo.
Digo o que j, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De to tua que s.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Comeas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que ests a pensar,
J quase no sorrindo.
At que neste ocioso
Sumir da tarde ftil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso intil.




                             103
Tomamos a Vila depois de um
Intenso Bombardeamento
A criana loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.
A cara est um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
-- Dos que biam nas banheiras --
 beira da estrada.
Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criao do futuro...
E o da criana loura?




                                    104
Vaga, no azul amplo solta
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado no volta.
No  o que estou chorando.
O que choro  diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no cu sem gente,
A nuvem flutua calma.
E isto lembra uma tristeza
E a lembrana  que entristece,
Dou  saudade a riqueza
De emoo que a hora tece.
Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Est para alm da saudade.
No sei o que  nem consinto
 alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.




                                  105
